Eles passam com saudade


 Se a noite hoje falasse teria sal seco entre rugas, teria lágrimas espaçadas entre frases.

Poderia ter sorrisos e gargalhadas a acompanhar, mas a alegria não quis ficar, não esta noite!

Com certeza o sorriso de sol enfeitado amanhã  regressa, mas hoje não! 

Hoje a noite é da escuridão que sentou no colo carregado de queixume oprimido e escondido.

Hoje a noite é uma ferida aberta de saudade desperta.

Amanhã. Amanhã falo e rio com toda a força e gosto por rir!

Hoje não! Hoje pesa-me o peito do nó desfeito que a vida quis dar. E pesa-me a treta toda do mundo e dos 4 anos que não te oiço cantar, falar e o meu nome chamar.

Amanhã já oiço este e aquela porque a vida é caminhar sem parar. Amanhã! Hoje não! 

Hoje encolho-me na sua ausência à minha presença e em tudo o que a minha memória ousa desfiar. 

Se te esqueço me ofendo, se te lembro falta-me um membro.

Que a saudade vá à merda num só tom, porque não importa nada quando da tua boca já não oiço nenhum som.


Cátia Castro in noites de veludo. 💬🕳

17/01/2023


Este vazio que me preenche
desgasta-me as células
atira-me ao fundo de um sofrimento
que não reconheço, que nunca quis conhecer.
Que os dias fossem tão breves
como aqueles que saltava para o teu colo,
e ensolarados como o final das tardes de verao em que comiamos sardinhas e a vida era um churrasco.
A saudade que passou a ser um monstro escondido no armário.
A chamada que não mais me vais atender para dizer "bom dia minha filha"
O calendário marcou o teu dia,
marcou o nosso dia e o de todos nós
que sentiremos o teu cheiro, palavras e risadas a cada passo e accão.
Se a força falasse, ela seria a tua voz
que a cada dificuldade dava um sorriso de seguida.
Esse maldito levou-te de nós mas não levou o teu Ser que está em cada partícula do nosso. Não levou tudo o que ensinaste e que ensinaremos a quem amamos.
Irás estar sempre na brisa da manhã que tanto gostavas de respirar.
Irás estar no entardecer de um dia de sol
em que dizias "olha para esta maravilha".
Irás estar em cada gota de água que cai do céu.
Eras um amante da vida, das pessoas, da natureza e animais, um Ser tão especial para mim e tantos.
Vais deixar saudade pai.
Um dia voltaremos a ver-nos.
Cuida de nós como sempre.
Até já.

18/01/2019
Cátia Castro

" Quero "

Quero, podes deixá-la acesa?
quero despir os teus medos
quero, mas essa incerteza
quero, mas só te apanho os dedos
quero uma mão cheia de tudo
quero outra cheia de nada
quero, mas finjo ser mudo
quero, dá-te só nesta madrugada
quero ouvir-te, nosso gemido
quero e quero-te, porque não grito?

Quero ser o que não foi esquecido
quero um tanto e não tão pouco
quero de sol cobrir a sombra pousada
quero alcançar-te espírito de alma roubada
quero magia escondida na vida vazia
quero, mas tudo em ti é poesia

Quero, mas um dia não quis
quero que quisesses não me ver infeliz
quero resistir-te firme como baobá
quero amar-te mas tu não estás cá.


Cátia Castro

Vida

Liberta-me ó composto barulho no perfeito rolar de ondas do mar
mulher que passas pela manhã a cantar
pássaros que chilream, Homens que alegria semeiam
cheiro da chuva embutido na terra, e tu, ó silêncio no cimo da serra

Liberta-me ó trago do vinho vermelho na soalheira Sexta-feira
e palrares cantados da alma parida, plena, leve, e livre ainda
e tu gente que não passas apressada e trazes caminho aos teus pés

Liberta-me ó fado vadio em ruas do Bairro-Alto
aurora, de novo ver-te nascer
e somente crescer, liberta-me.

Prende-me o relógio abraçado a um tempo vestido de regras sem sentimento
despertar na rotina enrugada, e o caminho, o mesmo caminho
vozes metódicas, hipócritas, prendem-me a mente

A ternura, esta em mim perdura...

Entendo quando cuspias as sombras e me dizias
que a vida não carrega tristezas ou alegrias
que libertaria quando a vida me libertasse
descansaria quando o corpo de mim cansaçe.

Não te disse o dia que a vida me fez livre
e ninguém disse que a vida tem de libertar.




Cátia castro

A carta que DEUS escreveu ao mundo

Eu sou tua alma encostada na encosta por ti tatuada
amanhecer no nascer sereno da tua nudez
sou gemido dócil de vento em rua de timidez
sou água calma de viagem entre pedra de calçada
sou tuas complexas células de seres resilientes
de suspiros e soluços de vozes vazias no falar da terra
sou o cantar calado, sol posto escondido na serra
a verdade com que mentes ao Amor quando não me sentes
caminho a teu lado, coxo e tropeço sobre um ventre iníquo
cambaleio de passo apressado desde a criação ao princípio
não posso meu dedo mover desde que pari a te ver nascer
carrego aos ombros o caminho despido na despedida ao precipício
despe-te e despede-te desse vestido de vaidoso queixume
viola cheiros de violênçia impregnados em teus braços
volta a ser criança que ri e suga sem fim os cantos de meus passos
mantém aceso lume da alma ao rodeio de negrume.

Lembras-te do cheiro no vale semeado? Do silêncio de vozes na terra sulcado?

Resguarda meu feito na memória para voltar e principiar o fim de história.

Carrego-te no colo cansado de dedos - tudo o que oiço - lamúrias e medos...

Haja no amor um bem profundo ò mundo!



De Cátia Castro

DESDE QUE FOSTE

Foste! E desde que te foste ela descompôs-se desencontrada e perdida dentro desta porta fechada.
Assombrado de valor vazio tão cheio de nada, contento-me descontente no olhar deste quadrado de olhos postos à tua jovial face.
Rugas românticas, as levo para duro chão.
Difícil aceitar e pedir perdão carregando – ou não – a razão.
Este amor que dói, corrói todos os sentidos que não doentes.
Despertas-me a saudosa alma que avivo vestida de petúnias viçosas.
Lembro-te aqui; tu nunca aqui estiveste, apenas a minha carcaça velha deixaste.
Cortadas as cordas desfiadas no colo destes anos passados e eu neste parado compasso.
Queria aqui ter-te por mais uma vez mas contei ao céu mês a mês visitas que não te vi.
Trémulo corpo cravado neste pedaço de quarto de paredes falantes.
Deixaste-me! E desde que me deixaste que meu sangue dança desencontrado
no jardim amargo com cheiro a saudade.
Ah se minhas asas andassem, minhas pernas voassem...
Dar-te-ia como por magia um beijo com sabor de amor.
Dir-te-ia sem rancôr que te carrego nas veias até que me fôr.
Foste! Mas porque te foste, peço-te um último sorriso neste meu velho rosto.
Perdoa-me este peito, que para dizer AMO-TE não tem muito jeito.
Pergunto a estrelas desta noite fria
Será que vens ver-me um dia?



De Cátia Castro

HOMEM

Os Homens falam sobre como voar
para roubar liberdade livremente
com ar superior num Estado demente
cansados do cansaço de roubar a trabalhar.

Os Homens falam de ir à lua
e deixam a Terra em negrume decomposto
ter um fato é de facto um posto
de foder vida alheia que não a sua.

Os Homens falam de preservação patrimonial
com perfuradores responsáveis à guerra
domadores resolvidos a resgatar  terra
sem respeito a qualquer leito ou animal.

Os Homens falam que se deve sonhar
libertam-te a realidade deprimente
aprisionam-te com tecnologia para te calar
e fazem-te crer que isso é um Ser inteligente.

Eu disse-lhes um dia, que na mente trago cordas vazias
em que aperto sonhos, estrangulo memórias e histórias melindrosas
 é certo, carregá-las-ei até fim de meus dias
todas elas são minhas e não vossas.

Homens de mãos baixas e navios vazios...



De Cátia castro